Porque é oportuno, e tentando em parte responder a algumas das questões colocadas nos motores de busca que deram acesso a uma grande parte dos posts sobre os ciclones Funso e Giovanna, seguem algumas notas sobre o clima e fenómenos atmosféricos extremos que ocorrem no Canal de Moçambique todos os anos por esta altura.
O Giovanna apresentou características interessantes no que se refere à imprevisibilidade dos sistemas atmosféricos e no que se relaciona com a modelação do comportamento que informa os sistemas de previsão meteorológica em geral, por mais sofisticados que sejam os meios ao dispor. Por duas vezes, depois de atravessar Madagáscar, o Giovanna “parou”, sob influência das sua própria dinâmica e da interacção com outros sistemas atmosféricos, uns localizados sobre o continente africano, outro sobre Madagáscar, e outros no mar. As previsões indicavam uma evolução sudoeste que viria a afectar a costa sul de Moçambique, desta vez a sul do Cabo das Correntes; no mesmo dia a previsão mudava para indicar uma evolução no sentido noroeste, passando a afectar a costa norte de Inhambane, com o centro virado directamente para Vilankulo; essa previsão manteve-se por umas horas, mas ao final do dia passou a mostrar uma evolução para leste, em direcção ao sul de Madagáscar, a única possibilidade que não tinha sido considerada antes. Nesta altura do ano, a região é uma azáfama. Na região central do Oceano Índico, entretanto, vai evoluindo no sentido sudoeste uma nova tempestade tropical (Tropical Storm) que leva o nome de TC13S que, para já, se estima não venha adquirir grandes proporções nem a causar estragos em terra.
Tudo isto se relaciona com a chamada “dependência sensível das condições iniciais” e com o facto de algumas das variáveis determinantes do comportamento dos sistemas não poderem ser ponderadas, seja porque não são conhecidas, seja porque ainda não se manifestaram, ou, ainda, por causa dos arredondamentos que precedem os modelos previsionais, e essa diferença “marginal” acaba por ter um papel determinante. Esta lição serve igualmente, de um modo geral, para as teorias dos sistemas de previsão e planificação. O aviso que fica é que, nesta altura do ano é preciso ver as previsões e acompanhar a evolução dos sistemas atmosféricos. Nenhuma previsão ou projecção é absoluta e, do aparentemente “nada se passa” pode surgir uma perturbação de grandes dimensões, tudo dependendo de como os sistemas interagem uns com os outros, as trocas de “calor” que se estabelecem entre eles e a sua própria evolução endógena. Nenhum sistema é isolado.
Na categoria “Desastres Naturais” em Moçambique, os fenómenos climáticos, incluindo ciclones e depressões tropicais, são sem dúvida os principais responsáveis pelas maiores perdas humanas e económicas. Ao clima e às suas manifestações se devem as cheias[1], as secas e os ciclones. Às secas se devem as falhas da produção agrícola e as fomes, migrações e deslocações de populações; às cheias se devem enormes perdas de infra-estruturas, habitações, culturas agrícolas e vidas humanas, para além da eclosão de epidemias. Ao longo da história de Moçambique, as manifestações climáticas e atmosféricas tiveram uma contribuição determinante em momentos decisivos. Três exemplos: a seca prolongada que afectou o sul do continente e deu origem ao Mfecane na segunda década de 1800; um prolongamento desse mesmo ciclo de secas, na década de 1830/40 na Zambézia teve um papel determinante no aumento dramático do comércio de escravos; para o fim da guerra da Renamo em muito contribuiu a prolongada seca que assolou o país em finais da década de 1980. Portanto, o impacto das manifestações do clima e os seus eventos extremos não têm impactos apenas ao nível das infra-estruturas económicas, mas também ao nível de novas tendências de desenvolvimento e mesmo mudanças políticas.
Pelo seu desenvolvimento intertropical, entre os paralelos 10ºS e 27ºS, mais de 80% do território de Moçambique encontra-se entre o Trópico de Capricórnio (23º26’16”) e o Equador, numa zona de transição climática e sob a influência de vários sistemas continentais e marítimos, para além dos fenómenos atmosféricos globais relativos às várias zonas climáticas do planeta.
O principal factor condicionante dos regimes climáticos é o movimento aparente do Sol na sua “viagem” cíclica entre os trópicos, marcado por quatro momentos: os Solstícios de Dezembro e Junho e os Equinócios de Março e Setembro. De 22 de Março a 21 de Setembro o Sol transita no hemisfério norte e de 21 de Setembro a 22 de Março transita no hemisfério sul, atingindo os seus extremos a 22 de Dezembro (hemisfério sul) e a 21 de Junho (hemisfério norte). Essas datas[2] marcam o início de cada uma das estações do ano: as 4 das zonas temperadas que se situam a sul e a norte dos trópicos, e as duas[3] das regiões intertropicais.
Por influência da predominante “civilização ocidental” e da sua terminologia, a partir do século XVIII as designações Verão e Inverno foram adoptadas generalizadamente para classificar, respectivamente, a estação quente e a estação fria, e Primavera e Outono para referir as estações de transição. Outras civilizações do globo têm as suas próprias designações para manifestações climáticas específicas, como é o caso das Monções que têm nomes específicos em diferentes locais, referindo-se às suas características dominantes.
Em Moçambique, em nenhuma das suas regiões climáticas se pode falar de mais do que duas estações, no caso a “estação das chuvas” e a “estação seca”, esta última também muitas vezes referida como o “cacimbo”.
Os elementos mais importantes na configuração dos climas de Moçambique são, portanto, a sua posição relativa ao movimento aparente do sol, o mar, a configuração da costa e as características específicas do Canal de Moçambique, a influência de Madagáscar, do Lago Niassa, das bacias hidrográficas (incluindo o Lago Cahora Bassa), o relevo pronunciado do interior (regiões de planalto de Cabo Delgado e Niassa, os picos de Namúli e a crista montanhosa do Vale do Rift, a Serra da Gorongosa e a região montanhosa de Chimanimani), e o planalto central da África Austral (Zimbabwe e Norte da África do Sul, este último incluindo a influência do Drakensberg, a barreira dos Libombos e do Escarpment de Mpumalanga, e os sistemas do Limpopo e Gauteng/Kalahari). Aos elementos mar e atmosfera somam-se ainda os factores altitude e massa continental. Por último, a corrente quente do Canal de Moçambique[4], alimentada pelo desdobramento da corrente equatorial sul ao longo da costa leste africana.
Genericamente, podemos definir três zonas climáticas principais influenciadas por fenómenos atmosféricos diferentes, sendo: a região costeira entre o Cabo Delgado e Angoche e até ao Lago Niassa, sob a influência do regime de monções do Índico; a zona entre Angoche e o Cabo das Correntes (Inhambane), sensivelmente coincidente com os limites do Banco de Sofala, correspondente a uma zona de transição sob influência das monções e da Zona de Convergência Intertropical e de um centro anti-ciclónico (altas pressões) localizado sobre o planalto central da África Austral e outro sobre Madagáscar; e a região entre o Cabo das Correntes e a Ponta do Ouro, já sob a influência do Jet Stream Polar Antártico, esta principalmente entre Maio e Setembro. Estes limites oscilam de acordo com as estações do ano, sendo que os limites da influência da monção podem, em casos extremos, atingir latitudes tão a sul como Maputo durante o “Verão” Austral, entre Outubro e Março, e recuando para norte durante o “Inverno” Austral entre Abril e Setembro.
No que se refere aos fenómenos atmosféricos resultantes da interacção destes sistemas dinâmicos, a regra básica de interpretação remanda para a localização dos centros de altas e baixas pressões que se vão estabelecendo em terra e no mar, sendo que as massas de ar (ou ventos) se deslocam sempre dos centros de altas pressões para os centros de baixas pressões, na deslocação horizontal, e que existe igualmente uma interacção entre os vários níveis da atmosfera, determinando deslocações verticais, onde o ar quente (menos denso, baixa pressão) sobe, e o ar frio (mais denso, alta pressão) desce. Quanto maior for a amplitude mais fortes serão os ventos e as perturbações. Acresce aqui o factor temperatura da superfície do oceano, quando os sistemas se desenvolvem sobre o mar, e que é normalmente o caso, em que a humidade resultante da evaporação constitui um dos factores de mais peso no reforço dos sistemas.
No caso do Canal de Moçambique, à medida que a posição relativa do Sol se vai deslocando para sul e as temperaturas do mar e da terra vão aumentando, começam a desenvolver-se condições propícias à formação de tempestades de várias intensidades, sendo que essas variam conforme a latitude, dando azo a que a época dos ciclones e a sua incidência nos diferentes pontos da costa de Moçambique também variem: a maior parte dos ciclones que atingem Maputo ocorre entre finais de Janeiro e princípio de Fevereiro, enquanto que, normalmente, a estação dos ciclones na costa norte é mais para entre finais de Fevereiro e finais de Março, havendo alguns extemporâneos, já em Abril, mês em que também rondam os ventos dominantes, após o equinócio de Março. Nessa altura o Sol está já no hemisfério norte e os centros de baixas pressões passam a localizar-se sobre o continente[5] indiano, fazendo com que os ventos dominantes passem a ser do quadrante sul (sudoeste no hemisfério norte e sudeste no hemisfério sul), ao mesmo tempo que se reforça o centro anticiclónico austral com a subida do Jet Stream Polar e da Zona de Convergência Intertropical.
Os sistemas atmosféricos são dinâmicos e imprevisíveis em qualquer dimensão absoluta, pois interagem com outros sistemas à escala global, havendo sempre novas dimensões que vêm alterar as condições que servem de base às projecções das previsões meteorológicas. Um exemplo dessa interacção é a ENSO (El Niño Southern Oscillation), que em português se poderá chamar de Oscilação Austral (ou Sul) El Niño (ou simplesmente El Niño/La Niña), que tem influência sobre o comportamento dos sistemas atmosféricos do Índico através das chamadas “teleconnections“. Portanto, um fenómeno que pertence ao (e é típico) do Oceano Pacífico tem influência sobre o comportamento climático do Índico e, à distância de um Oceano, do continente africano. De igual modo, as monções do Índico influenciam o clima do Mediterrâneo e da Ásia Central.
Qualquer alteração (ou anomalia) verificada no comportamento de um sistema climático de uma região tem implicações determinantes no comportamento dos sistemas que lhes são contíguos. Por isso, todos os avisos devem ser tomados em consideração com a devida cautela para, por um lado, não gerar pânicos desnecessários e, por outro, manter níveis de alerta e garantir as precauções necessárias para evitar danos humanos e materiais, procedendo, quando pertinente, à evacuação de populações em risco para zonas seguras. Numa perspectiva de planificação a longo prazo, os responsáveis pela planificação da ocupação do território deveriam tomar estes elementos em consideração para relocalizar aglomerados humanos que se situam em zonas de alto risco.
Uma referência importante é que as tempestades baixam sempre de intensidade quando interagem com terra, porque deixam de ser alimentadas por massas de ar húmidas, e que a sua evolução é condicionada pela localização de sistemas concorrentes, que tendem a neutralizar-se, e sistemas que os alimentam. Por princípio, a localização sobre o mar reforça a tempestade e essa contribuição positiva é tanto maior quanto mais alta for a temperatura da água do mar à superfície. Mas uma bacia hidrográfica interior (como o Lago Niassa ou os Grandes Lagos Africanos) ou um sistema florestal significativo (como a floresta equatorial africana) também podem contribuir para reforçar um sistema ciclónico, conforme a possível contribuição do seu teor de humidade, o que remete mais uma vez para a relação entre temperatura e humidade. Um exemplo disso foi o comportamento do Ciclone Katrina (2004), no Golfo do México, que aumentou de intensidade quando interagiu com a Bacia do Mississipi.
A forma característica de uma tempestade assemelha-se à de um Cúmulo-Nimbo, que é basicamente um sistema de circulação que se desenvolve como uma torre, chegando a atingir 18 km de altura, com amplitudes térmicas que chegam a atingir os 80 graus centígrados entre o topo (-40C) e a base (40ºC). Quanto maior for essa diferença mais fortes serão as correntes ascendentes pelo canal central da formação, imprimindo o movimento de circulação em torno desse eixo e “deixando transbordar” massas de ar frio na periferia do sistema. Como essa massa de ar frio está carregada de humidade aspirada do mar, essa humidade precipita em forma de gelo, transformando-se em chuva à medida que a temperatura sobe com a perda de altitude. Em sistemas particularmente robustos e com maior amplitude térmica, com ventos verticais mais fortes, a formação de gelo nas camadas superiores precipita sob a forma de granizo. Estas formações desenvolvem-se em zonas de baixas pressões, atraindo outras formações mais fracas que se encontrem sob a sua influência, e vão-se deslocando em função da interacção com outros elementos atmosféricos, como cristas de altas pressões ou outros sistemas de baixas pressões mais potentes que os possam atrair na sua direcção. O poder de “aspiração” de um ciclone tropical de grande intensidade pode chegar a provocar períodos de seca em regiões adjacentes que contribuem para alimentar o sistema principal, alterando o padrão “normal” de precipitação sazonal.
O Ciclone Tropical Funso (08S) no Canal de Moçambique, começou a formar-se ao largo da costa sul de Cabo Delgado, ainda como Depressão Tropical, transformando-se em Ciclone Tropical (Categoria 1) ao largo de Angoche, como consequência da contribuição da alta temperatura da superfície do mar, onde predominava um centro de baixas pressões. Esse sistema foi entretanto alimentado predominantemente por uma corrente de alto nível proveniente do interior de Cabo Delgado e Niassa e resultante da recirculação de massas de ar marítimo equatoriais, transitando depois para a periferia Leste do Sistema do Funso, sobre Madagáscar, quando o epicentro do Ciclone se encontrava sobre o Banco de Sofala. Uma outra fonte de alimentação foi a grande acumulação de humidade resultante da Depressão Tropical Dando que afectou a região sul do país e se concentrou ao longo da fronteira com a África do Sul (a Barreira Libombos/Escarpment), deslocando-se para norte. Depois de ter atingido a latitude de Quelimane, o ciclone amentou de intensidade e deslocou-se ligeiramente para norte, mantendo-se sempre sobre o mar, até voltar para leste, para o Canal de Moçambique, onde voltou a reorganizar-se, estando definido como de Categoria 3 às 09.00 UTC (11:00 horas locais) a 23 de Janeiro, tendo continuado a reforçar-se até atingir a Categoria 4, que manteve até à latitude do Cabo das Correntes, na região central do Canal de Moçambique. O ciclone continuou a deslocar-se para sul-sudoeste, perdendo força a partir da latitude do Cabo das Correntes, e acabando por evoluir francamente para sudeste, acompanhando o contorno da costa sul de Madagáscar e desfazendo-se sobre o oceano à medida que a temperatura da água do mar à superfície baixava, deixando assim de alimentar o sistema. Até ao dia 26 de Janeiro ainda se considerava a possibilidade, embora remota, de o sistema poder retomar a direcção sudoeste, reforçando-se e atingindo a costa sul de Moçambique. Prevaleceu a previsão dominante que era a da evolução para sudeste. Isto atesta a imprevisibilidade da evolução deste tipo de sistema e a necessidade de não descurar possibilidades aparentemente descartáveis.
Para interpretar correctamente os avisos meteorológicos é necessário conhecer a linguagem utilizada e os princípios básicos do funcionamento dos sistemas atmosféricos. Esse é um processo de aprendizagem que deve ser generalizado e que é cada vez mais relevante como parte dos processos de empowerment, para que os cidadãos saibam acompanhar a informação disponibilizada pelas organizações especializadas e interpretá-la correctamente de acordo com os locais em que se encontrem. Desse processo faz parte uma considerável dose de intuição, querendo com isso dizer que a experiência e a capacidade de identificação e relacionamento de padrões têm também um papel importante na percepção e assimilação da informação a nível local.
Quanto à estimativa de impactos dos sistemas de tempestade, é importante notar que eles se referem normalmente aos impactos causados sobre estruturas construídas de acordo com normas de qualidade para alvenarias e outras para infra-estruturas urbanas e rurais, como estradas principais, linhas de transporte de energia e sistemas de abastecimento de água, não considerando as habitações precárias que constituem mais de 90% das habitações da população em Moçambique, que, coincidentemente, são as mais vulneráveis e carentes de apoio. No entanto, de um modo geral, pode-se considerar que quaisquer ventos acima de 65 km/hora e níveis de precipitação acima de 75 mm em 24 horas são susceptíveis de causar danos consideráveis sobre habitações precárias e, principalmente no caso dos sistemas urbanos e quando há deficiência de drenagem de águas pluviais, sobre infra-estruturas várias e bairros suburbanos de renda baixa. Como estes sistemas estão igualmente associados a chuvas fortes, as zonas baixas e as encostas são particularmente susceptíveis de sofrer danos consideráveis, tal como as construções localizadas junto ao mar – em dunas e nas praias junto à linha da maré. Nas encostas destaca-se o risco de aluimento e na sua base o risco de soterramento. Nas zonas baixas, principalmente junto de linhas de água e vales dos rios, destaca-se o perigo de inundação e a possibilidade de arrastamento pela força das águas de tudo o que se encontre no seu caminho. Após as tempestades, o risco que se coloca é do domínio da saúde pública, pois as águas estagnadas são veículo de propagação de doenças e agravam a possibilidade de epidemias, particularmente de cólera, malária, tifo e disenteria. Quando a este cenário se associa a deposição descuidada de lixos e a sua não remoção e o facto de a maior parte das habitações precárias terem latrinas secas cujos dejectos entram em contacto com águas superficiais e lençóis freáticos, o risco agrava-se exponencialmente.
As cidades estão particularmente expostas a este tipo de impacto, principalmente quando não são respeitadas normas de planeamento urbano e territorial e a maior parte da população habita zonas inadequadas onde devia ser proibido construir, com grande densidade de ocupação e sem observância de normas de construção e de qualidade dos materiais utilizados. Nas zonas edificadas com construções convencionais (vulgo “cidades de cimento”), prevalece um enorme desrespeito pelas normas de planeamento urbano, sem sistemas de drenagem eficientes e suficientes, sistemas de esgotos e fossas sépticas inapropriados e sem manutenção, com grande densidade de ocupação e pouca capacidade de absorpção e drenagem das águas da chuva e enxurradas.
Infelizmente, regista-se por todo o lado a ocupação humana de zonas de alto risco, sem que se criem sistemas de compensação, como sistemas de drenagem e normas de densificação que possibilitem a drenagem natural em linha com o que vai sendo designado por “construção sustentável”.
[1] As cheias podem não resultar exclusivamente das chuvas da estação que caem directamente sobre o território moçambicano, podendo antes resultar de chuvas caídas noutros países e, no caso do Zambeze, a muitos milhares de quilómetros das nossas fronteiras. Outra causa, muitas vezes induzida por cheias em países vizinhos, pode resultar da abertura das comportas das barragens sobre os rios internacionais como o Zambeze, o Save, o Limpopo, o Incomáti, o Umbelúzi e o Maputo. As recentes cheias no sul do país, que causaram mais uma vez a interrupção da EN1 no aterro de Xinavane, resultaram principalmente das grandes chuvadas que se abateram sobre a província sul-africana de Mpumalanga e da abertura das comportas das barragens do Incomáti e seus afluentes, maioritariamente localizadas em território sul-africano, na medida em que também essas determinam a descarga extraordinária de Corumane.
[2] As datas não são fixas, como tudo o mais no Universo, tendo uma variação de +/- 2 dias de calendário, embora se convencione uma posição média como referência.
[3] As duas estações das zonas intertropicais correspondem ao trânsito do sol pelos hemisférios, ou seja, o seu início e fim são marcados pelos equinócios.
[4] O Canal de Moçambique desenvolve-se entre o paralelo 10ºS (latitude do Cabo Delgado) e o paralelo 24ºS (latitude do Cabo das Correntes). A sul do paralelo do Cabo St. Marie no extremo sul de Madagáscar, a Corrente do Canal de Moçambique junta-se à corrente do Leste de Madagáscar, formando a Corrente das Agulhas. A corrente do Canal de Moçambique tem características muito interessantes, dando lugar à formação de eddies em dois locais específicos, o que faz com que a navegação no Canal, sob a influência da força das correntes, dos eddies e dos ventos, seja bastante difícil nalgumas alturas do ano, o que se agrava nas alturas de mau tempo. Logo à entrada do Canal, a norte, a corrente estabelece-se no sentido Leste-Oeste a norte das Comores, até à costa de Cabo Delgado a norte das Quirimbas, gerando uma contra corrente Oeste-Leste desde o sul do Arquipélago das Quirimbas até à costa de Madagáscar, ligando directamente Arimba (costa de Cabo Delgado) a Mayotte (Comores) e à costa de Mahajanga no noroeste de Madagáscar. Sobre o paralelo 15ºS (Ilha de Moçambique) desenvolve-se a passagem mais estreita do Canal, com cerca de 200 milhas até ao Cabo Santo André (Madagáscar). Este estreitamento do Canal dá origem a um aumento da velocidade da corrente e, logo a sul, já para a latitude de Angoche e junto à costa, forma-se o primeiro eddy. O segundo ocorre à latitude do Cabo das Correntes, também junto à costa, possivelmente devido à interação da corrente com o impedimento das ilhas vulcânicas das Bassas da Índia e da Ilha Europa.
[5] Prefiro chamar-lhe continente em vez de subcontinente pois corresponde a uma placa continental específica.